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20/10/2025

Pejotização disfarçada: até onde vai o risco para empresas?

 

Nos últimos anos, o modelo de contratação por pessoa jurídica, popularmente conhecido como “PJ”, se tornou comum em empresas de todos os portes. Essa modalidade, quando feita de forma correta, pode trazer benefícios tanto para contratantes quanto para profissionais.

Mas há um ponto delicado: quando o contrato de prestação de serviços oculta uma relação típica de emprego, surge o risco da chamada pejotização disfarçada. E esse risco não é pequeno, ele pode gerar ações trabalhistas, autuações fiscais e sérios impactos financeiros e reputacionais.

Neste artigo, vamos explicar o que caracteriza a pejotização, quais são os limites legais e como as empresas podem se proteger com contratos bem estruturados e práticas jurídicas preventivas.

 

O que é, de fato, a pejotização disfarçada

A pejotização acontece quando uma empresa exige que o profissional abra um CNPJ para ser contratado, mas mantém com ele uma relação idêntica à de um empregado CLT, com subordinação, rotina fixa, e obrigações típicas de vínculo empregatício.

A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) é clara: há vínculo de emprego quando há pessoalidade, habitualidade, subordinação e onerosidade.

Ou seja, se o profissional:

  • presta serviços de forma pessoal, sem poder se fazer substituir;
  • recebe pagamento contínuo;
  • segue ordens e horários da empresa; e
  • depende economicamente dessa relação.

Então, mesmo que haja um contrato de “prestação de serviços entre empresas”, a Justiça do Trabalho pode reconhecer a existência de vínculo empregatício.

 

O que dizem a legislação e os tribunais

A Reforma Trabalhista buscou modernizar as relações de trabalho e trouxe o trabalho autônomo como legítimo, desde que não haja subordinação.

Isso significa que contratar um prestador de serviços PJ é perfeitamente possível e legal. O problema surge quando o contrato é usado para mascarar uma relação de emprego.

O Tribunal Superior do Trabalho (TST) já consolidou o entendimento de que a pejotização é ilícita quando há disfarce de vínculo empregatício. Em diversas decisões, o TST tem afirmado que a forma jurídica não prevalece sobre a realidade dos fatos.

O Supremo Tribunal Federal (STF) também enfrentou o tema. Nesses casos, o STF reconheceu que a terceirização e a contratação de PJs são constitucionais, desde que não haja fraude ou subordinação direta.

Em resumo:

A empresa pode contratar um profissional PJ, mas precisa garantir autonomia, liberdade de execução e ausência de hierarquia funcional direta.

 

Riscos jurídicos para empresas

A pejotização disfarçada não é apenas um risco trabalhista, ela também pode trazer consequências tributárias e previdenciárias.

  1. Reconhecimento do vínculo de emprego

O principal risco é o profissional ajuizar uma ação e ter reconhecida a relação de emprego.
Nesse caso, a empresa pode ser condenada a pagar todas as verbas trabalhistas retroativas: férias, 13º salário, FGTS, aviso prévio, horas extras e multas.

  1. Multas e encargos previdenciários

Além do passivo trabalhista, a Receita Federal e o INSS podem cobrar contribuições previdenciárias não recolhidas, com juros e multas.

  1. Danos morais e imagem corporativa

Há decisões recentes que condenaram empresas por dano moral coletivo quando o modelo de pejotização era adotado de forma sistemática.
Além disso, o impacto na reputação da marca empregadora pode ser significativo, especialmente em setores de alta concorrência por talentos, como tecnologia e saúde.

 

Como contratar PJs com segurança jurídica

A boa notícia é que a pejotização não é sinônimo de ilegalidade.
O que o Judiciário combate não é a contratação por PJ em si, mas o uso indevido dessa modalidade para encobrir vínculos trabalhistas.

Para atuar dentro da lei, siga estes princípios de compliance trabalhista:

  1. Estruture contratos objetivos e claros

Um contrato de prestação de serviços deve conter:

  • escopo e objetivos bem definidos;
  • prazos e entregas específicas;
  • ausência de termos como “salário”, “empregado”, “superior” ou “subordinação”; e
  • cláusulas que reforcem a autonomia técnica e operacional do prestador.
  1. Evite rotina típica de funcionário

O prestador PJ deve ter liberdade de horário, poder decidir como e quando executa o trabalho, e atender outros clientes.

A imposição de jornada fixa, controle de ponto ou dedicação excessiva são fortes indícios de vínculo.

  1. Formalize a natureza empresarial da relação

O prestador deve emitir nota fiscal, definir preço e condições de pagamento.
Pagamentos mensais fixos e benefícios típicos da CLT (como vale-transporte e PLR) devem ser evitados.

  1. Faça revisões periódicas

O ideal é revisar periodicamente os contratos e as práticas internas, especialmente em áreas com alto número de prestadores.
Essa revisão preventiva é muito mais barata do que responder a uma ação judicial.

 

Em termos simples

Contratar PJs é legal.

O que gera risco é contratar como PJ, mas tratar como CLT.

A linha é tênue, e o segredo está na autonomia real.

 

O que fazer agora?

Empresas que adotam o modelo PJ devem agir preventivamente. O primeiro passo é realizar uma auditoria jurídica interna para mapear contratações e identificar possíveis situações de risco.

Em seguida, é importante revisar contratos, ajustar cláusulas e treinar gestores para compreender o que pode e o que não pode ser exigido de um prestador PJ.

Contar com o suporte de uma assessoria jurídica especializada em Direito do Trabalho Empresarial garante segurança e previsibilidade.

Mais do que evitar processos, essa postura demonstra ética e conformidade, valores cada vez mais exigidos por investidores e parceiros de negócios.

A prevenção é sempre mais barata e inteligente do que a reparação.

A pejotização disfarçada ainda é uma das maiores fontes de passivos trabalhistas no Brasil.

Ela costuma surgir por falta de informação, urgência operacional ou economia imediata. Mas, a longo prazo, gera custos muito maiores.

Empresas modernas e responsáveis sabem que a relação de trabalho seja PJ

ou CLT, precisa ser juridicamente sustentável.

E isso só se alcança com contratos bem redigidos, práticas de gestão coerentes e acompanhamento jurídico constante.

Com uma abordagem personalizada e um compromisso com a excelência, a equipe da Alves Moreira & Advogados Associados está à disposição para oferecer suporte e orientação.

 

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