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04/11/2025

Direito à desconexão: como evitar passivos trabalhistas no home office

O direito à desconexão tem se tornado um dos temas mais relevantes nas relações de trabalho, desde que o home office se consolidou como modelo híbrido ou permanente em diversas empresas. O avanço da tecnologia e a facilidade de comunicação trouxeram ganhos de produtividade, mas também ampliaram o risco de passivos trabalhistas por jornadas extensas e ausência de controle sobre o tempo de descanso do colaborador.

Em um cenário em que mensagens no WhatsApp, e-mails e chamadas fora do expediente se tornaram rotina, muitas empresas acabam violando, ainda que sem intenção, o limite entre vida pessoal e profissional. E isso pode custar caro. Decisões recentes de Tribunais vêm reconhecendo o direito do trabalhador de se desconectar, como uma extensão da proteção à saúde e ao descanso previstos na CLT e na Constituição Federal.

Mais do que uma tendência, o direito à desconexão é uma necessidade empresarial para evitar ações judiciais, preservar a reputação da empresa e construir um ambiente de trabalho saudável e sustentável.

O direito à desconexão significa que o colaborador tem o direito de não ser cobrado, contatado ou penalizado, por não responder fora do seu horário de trabalho, especialmente no home office.

 

Direito à desconexão na prática

Na prática, o direito à desconexão está diretamente relacionado à gestão da jornada de trabalho, ao uso de ferramentas digitais e às expectativas de disponibilidade que a empresa impõe.

Um exemplo comum é o gestor que envia mensagens de trabalho durante a noite ou fins de semana, sem perceber que isso pode caracterizar tempo à disposição do empregador. Ainda que o funcionário não responda, esse simples ato pode servir de prova em uma futura ação, caso ele alegue pressão constante ou necessidade de estar sempre conectado.

No modelo de teletrabalho, a CLT já prevê a necessidade de acordos escritos para regular horários, formas de controle e responsabilidades. Contudo, muitas empresas ainda operam sem diretrizes formais, o que gera insegurança jurídica e abre espaço para reclamações trabalhistas envolvendo horas extras, adicional noturno e até danos morais.

Adotar uma política clara de desconexão é, portanto, uma medida preventiva essencial. Ela ajuda a definir limites, orientar gestores e demonstrar boa-fé em eventuais fiscalizações ou litígios.

 

Riscos de passivos trabalhistas no home office

O trabalho remoto trouxe autonomia, mas também desafiou as fronteiras do controle de jornada. Empresas que não estruturam políticas adequadas enfrentam riscos como:

  • Provas digitais de sobrecarga: prints, mensagens e e-mails fora de horário têm sido usados em processos para comprovar jornada excessiva;
  • Metas e prazos desproporcionais: podem gerar a sensação de disponibilidade permanente, tornando o descanso inatingível; e
  • Comunicação desorganizada: sem definição de canais e horários, o contato fora do expediente se torna prática cultural.

 

Essas situações, quando recorrentes, podem fundamentar pedidos de indenização e horas extras retroativas, com impacto financeiro significativo. Tribunais vêm interpretando que o simples fato de o empregado estar em home office não elimina a obrigação da empresa de respeitar intervalos e períodos de repouso.

Em disputas, o que prevalece é o conjunto de provas, e-mails, mensagens e logs de sistemas, que evidenciem que o colaborador era cobrado constantemente, sem pausas adequadas.

 

Como prevenir: políticas e práticas eficazes

Prevenir passivos trabalhistas exige mais do que boa vontade. É preciso implantar políticas internas de desconexão e rever a forma como a comunicação corporativa acontece.

A primeira medida é formalizar as regras por escrito. O acordo de teletrabalho deve especificar a jornada, o tempo de resposta esperado, os canais de contato e o que é considerado emergência. Essa formalização demonstra compliance trabalhista e reduz questionamentos futuros.

Em seguida, é necessário adotar boas práticas de gestão, como:

  • Definir horários oficiais de trabalho e limitar o envio de mensagens fora desse período;
  • Capacitar líderes para respeitar pausas e incentivar o equilíbrio entre vida profissional e pessoal; e
  • Implementar logs de acesso, registros de exceções e ferramentas que comprovem o cumprimento da jornada.

Além disso, incluir medidas de ergonomia e saúde mental no programa de home office fortalece a cultura de bem-estar e reduz riscos de adoecimento ocupacional. Pequenas ações, como check-ins semanais e pausas regulares, ajudam a equilibrar produtividade e descanso.

Empresas que investem em políticas preventivas e comunicação clara não apenas evitam processos, mas também fortalecem a confiança entre gestores e equipes.

 

Governança e cultura: a desconexão como valor empresarial

Implementar o direito à desconexão é também um ato de governança corporativa. Significa reconhecer que colaboradores descansados produzem mais e cometem menos erros.

As empresas mais avançadas já tratam o tema como pilar estratégico de ESG (ESG é a sigla em inglês para Environmental, Social and Governance = Ambiental, Social e Governança), reforçando o compromisso com a saúde, o equilíbrio e o respeito às relações de trabalho. Essa postura atrai talentos, reduz rotatividade e fortalece a imagem da marca empregadora.

Ao alinhar liderança, jurídico e RH, é possível transformar a desconexão em um instrumento de prevenção e produtividade. Não se trata de desligar completamente, mas de respeitar o tempo de cada profissional e de estabelecer limites saudáveis.

 

O que fazer agora?

O direito à desconexão não é uma tendência passageira, é uma realidade jurídica e social que precisa ser incorporada à gestão moderna. Ignorá-lo pode resultar em passivos trabalhistas onerosos, perda de reputação e desgaste das equipes.

Empresas que atuam preventivamente devem:

  1. Revisar suas políticas de home office e acordos individuais de teletrabalho;
  2. Estabelecer diretrizes claras de comunicação e horários de disponibilidade; e
  3. Promover treinamentos de liderança e auditorias periódicas sobre jornada e bem-estar.

A desconexão, quando bem implementada, protege juridicamente o empregador, melhora o clima organizacional e demonstra maturidade na gestão de pessoas.

Com uma abordagem personalizada e um compromisso com a excelência, a equipe da Alves Moreira & Advogados Associados está à disposição para oferecer suporte e orientação.

 

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